Café – #2

Sente-se e fique a vontade.
Como deseja seu café?
Com leite, expresso ou preto?
Suave ou forte?
Doce ou amargo?
Beberá aqui ou deseja para a viagem?
Algo para acompanhar?
É para aquecer a alma ou acalmar os nervos?
Tanto faz, não é mesmo?!
Aquece o peito e expulsa o grito preso na garganta, põe pra fora as palavras não ditas.
Aproveite.
Deleite-se com a promessa silenciosa de que daqui pra frente tudo ficará bem.

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(Des)encontros

Ei, você! Quanto tempo que não nos falamos, não é mesmo? Como você está? Como tem passado? Eu tinha visto que você frequentava aqui, mas estava com vergonha de tomar a iniciativa de vir te falar. Podemos sentar? Pedirei um café para nós.

Bem, faz tempo que não nos encontramos, você sumiu sem se despedir e não me procurou para conversar. Talvez você tenha alguma mágoa ou algo assim, mas, se desejar, não terei problemas em esclarecer o que quer que tenha ficado para trás. As coisas não são sempre como imaginamos, então sempre que algo sai do nosso controle é normal que tenhamos atitudes extremas. Não, não estou julgando ou algo do tipo, apenas entendo, mesmo não concordando. Esse tipo de situação é muito delicada e precisa ser entendida antes de qualquer coisa. Não me procurou quando me julgou errada, não procurou ouvir o que eu tinha a dizer, não permitiu que eu me defendesse antes de decretar sua sentença. Não quero pedir por desculpas, não quero pedir para desfazer o que foi feito, não quero pedir nada e nem dar as explicações que não foram pedidas, mas falar…

Gostaria de dizer que senti saudades e, não me julgue mal, me surpreendi com tal sentimento. A nossa convivência era realmente pouca ou nenhuma, nos encontrávamos casualmente, mas sempre conversávamos direta e indiretamente e eu sinto falta disso. Talvez seja apenas o reflexo da minha falta de amigos, não sei, mas eu tenho sentido falta das risadas, das conversas jogadas fora, dos drinques e tudo mais.

Enfim, é isso, consegui o que queria, falei o que queria falar. Se desejar ouvir qualquer explicação sobre o que aconteceu, a minha versão da história, o que eu tenho a dizer sobre, você sabe onde me procurar e me encontrar. Meus contatos continuam os mesmos.

Agora, peço licença pois irei me retirar. O café é por minha conta, fique a vontade, pode terminá-lo.

Deixarei a despedida em aberto…

Diário de Bordo – #5

De cada amor, ou melhor, de cada pessoa que acreditei amar ou que me apaixonei em algum ponto, eu levo um pouco de suas características e/ou gostos mais marcantes e é engraçado perceber que hoje eu sou uma junção de um pouquinho de cada pessoa com quem me relacionei! hahahahaha… Não que tenham sido muitas, admito que a minha lista é bem pequena para um cara na minha idade, mas isso se deve ao fato de eu ser, como posso dizer: tímido? retraído? incapaz? Não! Nada disso. Eu sou trouxa mesmo! hahahahaha…

Veja bem, sempre que me relaciono com alguém acabo caindo numa espécie de transe onde permaneço captando detalhes daquela pessoa para entendê-la em sua essência e compartilhar com ela o que em mim houver de compatível. Não sei se isso é saudável, mas não é algo que eu ativo ou desativo quando quero.

Eu não me lembro se já falei disso, e me perdoe se sim, mas como você sabe faz mais de um ano que não nos falamos e admito que foi um pouco difícil encontrar seu novo endereço. Estava fugindo de mim!?

Enfim, eu sempre senti como se houvesse mais que um de mim habitando o mesmo espaço. Isso faz sentido para você? Bem, em algum momento eu percebi que mudava com muita frequência, mudava de humor, de estilo, mudava os gostos e etc.. Não sei bem como explicar toda a mudança, mas era como uma reencarnação as avessas, sabe? O corpo era o mesmo, mas aquilo que o preenchia, mentalmente falando, era diferente. Era como ter um ponto de restauração no cérebro, havia mudanças internas, mas as coisas externamente continuavam da mesma forma. Era como usar diversas máscaras e estar em um teatro interpretando diversos personagens.Então, ao me relacionar com alguém há uma troca de personagens em que atuará aquele que de alguma forma se encaixa melhor com a outra pessoa. Dessa forma, o transe em que eu entro pode ser entendido como o baixar das cortinas para a troca de cena e de personagem. Parece confuso, e é!

É engraçado, como eu disse antes, no entanto, esse é o ponto onde queria chegar; como saberei quem eu sou, como me encontrarei e me reconhecerei se me sinto como uma colcha de retalhos com pedaços de outrem?

Tudo bem se não souber me responder isso agora, nosso tempo está acabando também. Enquanto nós dois procuramos uma resposta eu seguirei perdido nesse mar de outros, afundando cada vez mais e reunindo forças para buscar a superfície.

Ah! Hoje vamos de LP na playlist. Até breve!


“…How do we, how do we not fade?
How do we, how do we, how do we not fade away?
How do we, how do we, ooh
Into the wild
How are we living, living, living? …”

Lost on You*

Eu lutei com todas as forças que eu tinha para matar qualquer sentimento a mais que surgisse junto com a amizade que cultivávamos. Eu repetia para mim que aquilo era apenas diversão, um passatempo que não levaria a lugar nenhum e me forçava a acreditar nisso. Eu sou uma pessoa de poucos amigos e a sua amizade foi uma das coisas que tentei conquistar, pois havia algo a mais. Estaria mentindo se dissesse que sentia desde o primeiro momento, até porque você sabe como me sentia. Mas a partir de uma troca de palavras e com olhares um pouco mais intensos, eu percebi que algo nos ligava de alguma maneira. Aquele elo de cumplicidade, afinidade, confiança e paixão fazia com que eu me deixasse levar ainda mais. Rindo de suas piadas, ouvindo as suas músicas, lendo os seus pensamentos e trocando segredos. Lembro de quando nos abraçávamos e da energia que me transpassava, eu sentia paz.

As ondas do mar selavam o momento de cada encontro e a despedida, com a promessa de que voltaria outra vez, sempre fazia meu coração se acalmar.

Então, no dia em que a promessa não pôde mais ser cumprida e as ondas do mar só embalavam a minha tristeza, eu lutei mais uma vez. Lutei com todas as forças que me restavam para matar qualquer sentimento a mais que restara da amizade que mantínhamos. Eu me lembro das suas palavras, em um gesto de compaixão, dizendo que a culpa não era minha, mas eu tive culpa sim. Tive culpa por acreditar em algo que não existia, tive culpa em seguir com a mentira de que não havia nada de errado naquilo que fazia, tive culpa por perder a razão. Enfim, a culpa também foi minha. Travando uma luta interna contra um sentimento que não poderia ter sido nutrido nas circunstâncias em que aconteceu, eu consegui neutralizar o que sentia.

Agora, após dois drinques, em um momento de sanidade, clareza e amadurecimento, uma recaída em que a mente insiste em revisitar as lembranças do perigo que vivemos, me resta saber, enquanto o copo se levanta; todas àquelas coisas que eu perdi em você, elas ainda estão aí ou também se perderam em você?

 


* Texto baseado na música Lost on You, composta por Laura Pergolizzi. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hn3wJ1_1Zsg

 

Reiniciar (S/N)?

Você sabia desde o início, isso sempre se tratou de um jogo com cartas marcadas. Você nunca conseguiria ganhar. Por mais que o jogo pudesse ser prolongado, a sua derrota sempre esteve escancarada, para que todos soubessem.

Pois bem, enxugue essas lágrimas e engole o choro. A derrota era certa, mas lembre-se do prazer que sentiu ao participar do jogo, lembre-se da felicidade ao começar a partida e da felicidade de estar nela. No final é isso que importa, as coisas boas que sentiu enquanto o jogo ainda acontecia.

A vida carrega a tendência de nos pregar algumas peças e, feliz ou infelizmente, pregou uma peça em você, trazendo para perto alguém que te fazia bem e, no alto de sua alegria, afastando-a. Tão rápido quanto o começo foi o fim, mas siga seu caminho que o que há de ser será, por mais piegas e clichê que isso possa ser.

Há sempre mais partidas. Que tal tentar de novo?

O início do fim – Primeiros passos

Faz quase um mês desde que tudo aconteceu, confesso que foi muito difícil acordar todos esses dias e enxergar o vazio ao meu lado na cama, mas já não tenho chorado como na primeira semana. Não mentirei em dizer que ainda me pego chorando em vários momentos do meu dia enquanto estou em casa, porque em cada canto eu vejo você. Na varanda fumando, na cozinha pegando mais uma cerveja, na sala lendo algum livro, no banheiro cantando enquanto toma banho e no quarto onde você me chamava para deitar com aquela sua voz mansa e rouca. Seu riso ecoa por cada cômodo e seu perfume circula pelo ar enquanto a saudade me tira para mais uma dança.

Faz quase um mês que evito bebidas, talvez duas ou três vezes depois do trabalho, mas sempre o que for mais leve e em doses moderadas. Eu não quero perder minha consciência outra vez. Sair é um desafio, então sair e me manter sóbria torna-se um desafio duplo, mas tenho conseguido lidar com isso de uma forma positiva. É estranho perceber como há tantos casais em todos os lugares, isso faz com que a saudade machuque um pouco mais, mas preciso me acostumar para que possa seguir em frente.

Nesse período de adaptação eu devo ter discado o número dela todos os dias, mesmo sabendo que o número não existe mais, como uma forma de aceitação, numa tentativa de me convencer que acabou. É difícil levar a vida dessa forma solitária depois de tanto tempo compartilhando ela com alguém. A adaptação não é fácil, tenho que manter a esperança de que um dia a ferida irá cicatrizar e parará de doer, mas até lá não mais conterei as lágrimas que insistem em cair nas noites frias em que minha única companhia é a lembrança de tudo que vivemos e compartilhamos, as recordações de todos os momentos bons e ruins, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Desde o primeiro momento até aqui, eu sei que é amor.

Fuga

Recordo com certo aperto no peito,
quando estou em frente ao mar,
dos dias em que sentados à sombra
trocando beijos, carícias, risos e desejos,
debaixo da árvore a nos espiar,
compartilhávamos nossos segredos.

Entre sussurros, suspiros e sorrisos,
nossos corpos em sintonia
e o pensamento a navegar,
sabíamos das consequências
e uma quieta agonia
logo viria nos afetar.

Enquanto ela não vinha,
duas almas aventureiras a inflamar,
aproveitávamos como convinha
nossos encontros à beira mar.
Sorrisos desinibidos, beijos com urgência,
carícias delicadas e abraços apertados
matavam qualquer carência.

Fugas quase diárias
para o paraíso particular
até aquele fatídico dia chegar.
A magia se perdeu,
restaram somente as lembranças
de toda a alegria que a gente viveu.

A batalha foi perdida,
mas a guerra continua.
Nos campos da vida,
lutamos pela felicidade,
dia a dia.

O início do fim – Despertar

Quando acordei a minha cabeça deu um giro por toda a sala, tentei me levantar, mas parecia haver um elefante em cima de mim. Esperei alguns minutos e finalmente consegui me sentar. A sala estava uma bagunça, parecia que havia acontecido uma festa por ali. Tinha duas garrafas de vodca, algumas latas de cerveja e uma garrafa de alguma outra coisa alcoólica que não consegui identificar.

Ao procurar meu celular me dei conta de que estava de toalha e só consegui me perguntar, que caralhos aconteceu aqui? Peguei meu celular e olhei a hora, 15h57. Merda! Perdi um dia do trabalho. Outra olhada para a tela embaçada e… SEXTA-FEIRA! Como foi que se passaram dois dias? O que diabos aconteceu comigo? A última coisa que conseguia me lembrar foi de ter me assustado quando cheguei em casa na quarta. E eu só sei que era quarta, porque eu saí correndo do trabalho para dar tempo de assistir o jogo do Mengão. Procurei no celular algo que fizesse eu me lembrar, fotos, conversas, vídeos, qualquer coisa, mas não havia nada além de 13 chamadas perdidas. Me levantei com certa dificuldade e tateei até o banheiro.

Quando a água fria tocou minha pele por sobre os ombros, senti um soco me atingir a boca do estômago e a ânsia despejou sobre mim a lembrança que até então estava apagada. Naquele momento eu desejei esquecer tudo novamente. As lágrimas caíram sem a minha permissão e eu caí junto, de joelhos sobre o chão frio do banheiro. Eu sentia uma dor que não era física e, devo admitir, foi a pior dor que já senti. Não havia remédio ou chá ou álcool que pudesse fazer parar.

Na minha cabeça, além da dor que começara após alguns minutos de choro desesperado, só havia imagens de nós. Os momentos que compartilhamos e a felicidade que nos acompanhava. Foi com ela que aprendi o que era amor, que pude me conhecer, foi ela quem me deu forças quando eu fraquejei e foi com ela que acreditei em ‘para sempre’. Agora, aquilo tudo havia se desmoronado diante de mim e nenhum esforço seria capaz de colocar tudo de volta em seu lugar.

 

O início do fim – Blackout

Ao abrir a porta da sala percebi que a televisão estava ligada e a porta da varanda aberta, por um momento eu temi o que poderia estar ali, mas logo vi as malas no canto da sala e me lembrei de que ela havia voltado de viagem naquela tarde.

Fui até a varanda e a peguei fumando encostada no canto da sacada. Trocamos um beijo seco e eu percebi que algo não estava bem. Ela passou alguns dias fora e aquela atitude não condizia com a recepção costumeira de quando ficávamos algum tempo longe. Ela pediu para que eu guardasse as coisas e tomasse um banho para que pudéssemos conversar. O meu corpo entrou em um tipo de transe, nada de bom poderia vir dali, mas mesmo assim eu não falei uma palavra. Fui fazer o que me pedira.

Puta merda! Eu nunca demorei tanto tempo tomando banho como naquela noite de quarta. Enquanto a água caía sobre meus ombros eu repassava cada cena do nosso relacionamento, cada conversa, cada sorriso, cada abraço e as brigas que tivemos ao longo desses 8 anos. Eu entrei em um retrospecto mental dos últimos dias procurando o que eu havia feito de errado. Não havia nada, eu juro! Estava tudo certo. Eu estava pirando por nada. Não havia motivos. Eu gargalhei. Ri de mim mesma diante das paranoias que estava criando.

Saí do banheiro e ela estava me esperando na sala, me joguei em cima dela com o corpo ainda molhado. Eu conseguia fazer palhaçadas e provocações até quando o momento pedia seriedade. Vesti a toalha e me sentei na frente dela. Seus olhos estavam apagados e não havia qualquer expressão em seu rosto. Peguei um cigarro do maço que estava na mesa de centro e acendi, aquela situação estava me deixando apreensiva.

Untitled – #5

Eu cometi outro erro. Não sei qual é o seu número na minha lista, eu parei de contar quando percebi que não havia nenhum acerto para competir. Agora o peso disso está recaindo sobre os meus ombros e estou pagando o preço.

Esse sentimento que toma conta é tão ruim, me sinto sufocada e inútil. Estou a poucos passos de uma derrota por desistência e sinto que nada vai me fazer voltar, porque essa é a única coisa que não tem volta.

Acordar tem sido desesperador, encarar o mundo aqui fora só me machuca mais. Quando finalmente penso estar indo bem uma pedra surge no meu caminho e eu travo. Estou cansada dos tropeços. Eu não posso voltar para trás e não posso seguir em frente. Estou presa aqui, dentro do meu próprio ser e eu sinto muito em dizer que está tudo um caos. Na verdade, sempre esteve, mas eu havia aprendido a lidar com ele, mas agora está diferente e eu não sei o que fazer. Estou cansada demais para tentar entender e/ou consertar qualquer coisa.

Me deixe trancada em mim, nesse abismo sem fim. Me deixe dormir.