Palavras ao Vento – #2

Essa confusão de sentimentos sempre existiu na minha cabeça, no entanto, nunca tive essas alterações com tanta frequência. É desesperador querer chorar e estar sorrindo, querer sorrir e as lágrimas cairem. O misto de tristeza e contentamento tem me deixado numa montanha-russa.

O problema desses altos e baixos é o enjoo e o cansaço. Não saber por quanto tempo ainda conseguirei me manter firme também me preocupa. A novidade destes sentimentos causaram efeitos inesperados. Tudo ia muito bem enquanto era apenas teoria, a prática me mostrou a minha falta de preparo e capacidade de lidar comigo mesmo e com aquilo que sinto.

É aterrorizante lidar com isso e realizar esse processo sozinho é ainda mais díficil. Não há ninguém que possa me ajudar. A minha base se perdeu em algum lugar em meio ao caos que eu mesmo criei. Eu a vejo, está na minha frente, mas não consigo alcançá-la. A cada passo que dou ela se afasta dois e assim a gente vai se distanciando.

Algumas palavras não fazem mais sentido, eu não consigo mais acreditar em tudo que me dizem. A minha confiança se perdeu também junto com minha alegria e minha segurança. Tudo perdido girando em um limbo no qual não posso me jogar.

Certas coisas não devem ser recuperadas assim, é arriscado, perigoso. Existe sempre a possibilidade de ir em busca e se perder também ao invés de retornar. É mais fácil esperar daqui, olhar para o buraco onde tudo se escondeu e esperar que, por piedade ou algo assim, ele devolva o que te roubou. Por mais que isso machuque.

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Nota IX – 23/08

Há uma batalha interna, minha cabeça está um caos e meu peito doe todas as noites. Eu esperava uma força maior, esperava uma reação melhor da minha parte e não saber lidar com isso está me destruindo. Sentimentos conflitantes guerreiam para tomar o poder e eu não sei como agir. Como ácido correndo pelas veias, tudo queima. Eu não sei mais o que fazer para não sentir tudo o que acontece aqui dentro.

A luta é minha, somente minha, contra mim mesma.

Meus dedos não tocam a sua liberdade, minhas palavras não bloqueiam a sua vontade. Não tenho direito. Não sou ninguém. Não irei impedir. Não tenho força. Não irei parar. Ficarei onde estou, virando copo atrás de copo, acendendo cigarro atrás de cigarro esperando o que quer que possa acontecer. Numa esperança quase morta por um pouco de paz.

Mar

O horizonte parece distante, mas sei que chegarei lá. Meus passos são lentos, começo a sentir o frio da água tocar meus pés. A areia entre os dedos não incomodam mais, o vento fresco assobia em meus ouvidos, os raios fracos de sol aquecem minhas costas. Eu não estou tão confiante quanto gostaria, mas não tenho mais tempo de voltar atrás.

Outrora aqui nesse mesmo lugar, as ondas que quebravam me fizeram chorar. Eu olhava o mar, mas não queria encarar suas águas. Elas me machucariam sem qualquer piedade. Naquele dia não fazia sol, o céu estava nublado, o vento parecia não se mover e o atrito da areia entre meus dedos me causavam agonia.

Eu não quero olhar para trás, preciso seguir em frente, mas posso imaginar as pegadas que se apagarão em breve. Talvez o sol se lembre que me aqueceu e o vento recorde de cantar pra mim. Talvez a água lembre que me fez frio e a areia recorde que a agonia passou.

O horizonte parece distante, mas sei que chegarei lá. Eu já estou indo. Minhas lágrimas serão ondas e eu, finalmente, me tornarei mar.

Nota VIII – 07/07 – Clichê

Há um certo gosto amargo na boca, talvez seja da cerveja, mas acredito que tenha mais a ver com a desilusão que me assola.

Apaixonar-se é realmente algo interessante e bom de ser sentido. Em contrapartida, quando a paixão é unilateral, tende a ser uma experiência desgostosa e, dependendo de sua intensidade, um pouco dolorosa.

É um tanto quanto dramático toda essa coisa, mas não consigo ser menos intenso quando me apaixono por alguém. A parte boa é que quando o desinteresse chega a intensidade é a mesma, então tende a passar rápido. O problema é conseguir deixar de lado o desejo em tornar tal paixão em algo real. Essa é a parte difícil, é a parte onde leva tempo. O sentimento pelo outro desacelera, o desinteresse bate a porta, mas a vontade de apego permanece resistente.

É nesse momento, entre o desinteressar e o desejo de realizar, que me ponho a pensar sobre como lido com meus sentimentos. Um tanto quanto clichê esse conflito entre o coração e a razão, usar a bebida e o cigarro como remédio. Oh, eu sou mesmo um clichê. Uma personagem patética de uma comédia romântica mal sucedida. Sofrendo por amores fantasiosos em textos desestruturados.

Dança diferente

Ele pediu licença e sentou-se ao meu lado no balcão, chamou o barman e pediu uma cerveja. Nós havíamos trocado olhares mais cedo, mas agora estava nervosa com sua aproximação, não sabia exatamente o que fazer. Ele quebrou o gelo:

– De onde eu estava parecia que você estava flertando comigo, então eu vim até aqui pedir uma cerveja como desculpa para me aproximar – ele disse e abaixou a cabeça num gesto tímido e engraçado.

– É mesmo? Eu pensei que estava sendo discreta – disse aos risos tentando disfarçar o nervosismo.

– Nesse caso, sorte a minha você não ter sido – me acompanhou nas risadas.

A nossa conversa prosseguiu e com pouco tempo a minha timidez e nervosismo deram lugar a empolgação e envolvimento. Estávamos conversando sobre todos os assuntos que eram possíveis, desde o futebol da quarta passada, passando pela situação política até o questionamento sobre vida extraterrestre. Criávamos uma conexão e não víamos o tempo passar. Não sabíamos exatamente há quanto tempo estávamos ali, naquela troca, mas nos demos conta quando o barman informou que aquela seria a última cerveja, pois o bar estava fechando. Ele tocou minha mão e sorriu:

– Será que me daria a honra dessa dança?

– Eu não sei dançar – respondi enquanto sentia meu rosto corar.

– Eu não sou dançarino – me levantou pela mão e passou um de seus braços em minha cintura.

Naquele abraço forte pude sentir seu coração. Aos poucos meus batimentos iam se adaptando. Ele me conduzia de forma suave e seu rosto encostava levemente ao meu. A música parou de repente, nossos batimentos se encontraram e marcaram o ritmo, então continuamos ali na pista e em meio aquela dança diferente nossos lábios se encontraram. Me entreguei ao momento e me deixei levar.

Enquanto nossos lábios se afastavam pude ver seu sorriso amável e ele me disse:

– Pensei que não nos encontraríamos novamente, meu amor.