Não esqueça

Eu só peço uma gentileza, não esqueça.

Não esqueça do sorriso tímido que te ofereci na primeira vez que nos vimos. Não esqueça da toalha de papel manchada de café sobre a mesa. Não esqueça as palavras, nem os sinais. Lembre-se sempre que naquele momento eu era sua, apenas sua, mesmo que fora dali isso não fosse verdade. Lembre-se do abraço que trocamos e da pulsação de nossos peitos em sintonia.

Não esqueça do momento em que meus olhos, também tímidos, encontram com os seus. Não esqueça o som do embrulho do presente passando de um lado ao outro. Lembre-se sempre de que aquilo era eu dizendo que já gostava de você. Lembre-se da minha falta de jeito diante daquilo tudo.

Não esqueça da minha dificuldade em olhar diretamente em seus olhos na maior parte do tempo. Não esqueça que eu sou uma das exceções à regra, e você também. Lembre-se sempre das mensagens que trocamos em agradecimento ao encontro e da sensação do que viria pela frente. Lembre-se daquela música que dizia em sua letra exatamente o que eu estava sentindo, mesmo que eu ainda não soubesse e você muito menos.

Não esqueça da despedida enquanto esperávamos. Não esqueça para que lado caminhei enquanto você ia pela direção oposta. Lembre-se sempre de olhar pra trás e encontrar os melhores sentimentos. Lembre-se que aquele momento foi único pra mim e que eu o repetiria quantas vezes me fosse possível.

Eu só peço uma gentileza, não se esqueça.

Lembre-se de não se esquecer de mim.

Eu lhe imploro, não se esqueça.

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Pretérito Perfeito – #4

Inspirei.
Eu havia desmarcado o encontro, o coração desacelerava e a mente repassava tudo num filme. As intenções pareciam claras pra mim, mas talvez eu não estivesse pensando direito, talvez tivesse me enganado e interpretado tudo errado. Estaria me precipitando e colocando em risco uma relação de amizade que estava sendo construída.

Caminhei.
Enquanto andava para casa, fui tentando organizar o caos que havia se alastrado em mim. Meus passos eram lentos e minha atenção estava dispersa nos pensamentos. Estava fazendo hora extra no departamento de sentimentos e emoções, tentando colocar tudo em seu devido lugar.

Traguei.
Acendi outro cigarro quando estava quase chegando. Eu não queria errar novamente, não poderia. Essa coisa de gostar de mais sem correspondência me machucava e me desfazia sempre que acontecia. Eu não queria passar por tudo de novo em menos de um ano, não era justo.

Lembrei.
Há menos de um ano eu havia me envolvido com alguém e no fim me machuquei. Era pra ser algo casual, nada de sentimentos, mas como sempre eu fui além do que era permitido e me envolvi mais do que deveria. Era errado e quando as coisas não puderam ser sustentadas o fim me partiu em duas e deixou marcas. Se eu me esforçasse um pouco poderia sentir a dor novamente. Não era bom.

Recuei.
De volta para o agora, eu me convencia de que eu não estava pronta para me envolver novamente. “Não coloque seu coração na bandeja e o sirva no jantar.”, era o que eu pensava entre um trago e outro, “Ninguém pediu”.

 

O início do fim – Contato

Acordei assustada com alguém batendo na porta, olhei o relógio. 01h14. Quem bateria na minha porta a essa hora? Não poderia ser nada bom – pensei. Levantei com calma tentando não fazer barulho e caminhei até o corredor, as batidas pararam. Por um momento me senti aliviada, mas logo o terror tomou conta de mim. Eu podia ouvir as chaves balançando e o momento em que uma delas encaixou na fechadura. Estava apavorada.

– Eu tenho uma arma, se abrir eu atiro, seja você quem for! – Gritei sem pensar muito bem o que faria realmente.

A porta ia se abrindo devagar e o terror congelava meu corpo. Não conseguia me mexer, até que a corrente que entrava pela fresta da porta me trouxe uma sensação de alívio momentâneo. Eu não iria morrer, pelo menos não hoje.

– Desde quando você tem arma em casa? Você pelo menos sabe usar uma arma? – Falou enquanto tentava conter as gargalhadas.

Meus olhos não estavam acreditando na imagem que se projetava. Mil coisas se passavam na minha cabeça, eu estava tentando processar tudo. Era uma sensação estranha, um incômodo que agitava meu estômago. Meus olhos encheram-se. Eu corri para o banheiro, tranquei a porta atrás de mim e transbordei.

Haviam se passado meses desde que tudo havia acontecido. Eu sofri tudo isso sozinha. Sem ninguém. Sem ela. Por ela. Os primeiros meses foram tão difíceis, mas agora nada parecia tão difícil como encará-la novamente. Eu não estava pronta. Eu não havia me preparado.

Você está bem? Quer que eu vá embora? – Ela perguntou pelo outro lado – Eu posso voltar outro dia, ou outra hora aliás, mas eu preciso conversar com você.

Meu peito ardia e as palavras pareciam saltar de minha garganta com um impulso descomunal:

Por favor. Quando sair deixe as chaves na mesa de canto.

Nota VII – 09/03 – Respostas

A necessidade é urgente, eu preciso que você venha agora,
eu não posso mais esperar, a saudade invade.
Me dê uma resposta, eu lhe imploro, qualquer que seja,
não me abandone essa noite, eu tenho medo da solidão.
Dance comigo uma última música,
você escolhe, mas venha logo.
Antes que o dia termine, vem,
me mostre o que você quer de mim.
Não me deixe aqui no limbo do aguardo por uma resposta,
eu só preciso saber:

Sim ou Não?

Você já sabe a pergunta.

Nota VI – 07/03 – Expectativas

O barulho do celular a cada notificação faz com o que o coração dispare, o coração que dispara faz a respiração ficar eufórica, a respiração eufórica faz com que o estômago se agite, o estomago agitado faz com que as mãos suem, as mãos suadas tocam a tela do celular e os dedos escorregam.

A decepção é perceptível.

O que mais machuca não é o silêncio ou o que pode ser o descaso, não é a besteira de uma mensagem não enviada. O que mais machuca não são as coisas que a cabeça criam quando se pensa demais ou a sensação de perda, não é a loucura do imediatismo.

O que mais machuca é a expectativa criada.