O início do fim – Despertar

Quando acordei a minha cabeça deu um giro por toda a sala, tentei me levantar, mas parecia haver um elefante em cima de mim. Esperei alguns minutos e finalmente consegui me sentar. A sala estava uma bagunça, parecia que havia acontecido uma festa por ali. Tinha duas garrafas de vodca, algumas latas de cerveja e uma garrafa de alguma outra coisa alcoólica que não consegui identificar.

Ao procurar meu celular me dei conta de que estava de toalha e só consegui me perguntar, que caralhos aconteceu aqui? Peguei meu celular e olhei a hora, 15h57. Merda! Perdi um dia do trabalho. Outra olhada para a tela embaçada e… SEXTA-FEIRA! Como foi que se passaram dois dias? O que diabos aconteceu comigo? A última coisa que conseguia me lembrar foi de ter me assustado quando cheguei em casa na quarta. E eu só sei que era quarta, porque eu saí correndo do trabalho para dar tempo de assistir o jogo do Mengão. Procurei no celular algo que fizesse eu me lembrar, fotos, conversas, vídeos, qualquer coisa, mas não havia nada além de 13 chamadas perdidas. Me levantei com certa dificuldade e tateei até o banheiro.

Quando a água fria tocou minha pele por sobre os ombros, senti um soco me atingir a boca do estômago e a ânsia despejou sobre mim a lembrança que até então estava apagada. Naquele momento eu desejei esquecer tudo novamente. As lágrimas caíram sem a minha permissão e eu caí junto, de joelhos sobre o chão frio do banheiro. Eu sentia uma dor que não era física e, devo admitir, foi a pior dor que já senti. Não havia remédio ou chá ou álcool que pudesse fazer parar.

Na minha cabeça, além da dor que começara após alguns minutos de choro desesperado, só havia imagens de nós. Os momentos que compartilhamos e a felicidade que nos acompanhava. Foi com ela que aprendi o que era amor, que pude me conhecer, foi ela quem me deu forças quando eu fraquejei e foi com ela que acreditei em ‘para sempre’. Agora, aquilo tudo havia se desmoronado diante de mim e nenhum esforço seria capaz de colocar tudo de volta em seu lugar.

 

O início do fim – Blackout

Ao abrir a porta da sala percebi que a televisão estava ligada e a porta da varanda aberta, por um momento eu temi o que poderia estar ali, mas logo vi as malas no canto da sala e me lembrei de que ela havia voltado de viagem naquela tarde.

Fui até a varanda e a peguei fumando encostada no canto da sacada. Trocamos um beijo seco e eu percebi que algo não estava bem. Ela passou alguns dias fora e aquela atitude não condizia com a recepção costumeira de quando ficávamos algum tempo longe. Ela pediu para que eu guardasse as coisas e tomasse um banho para que pudéssemos conversar. O meu corpo entrou em um tipo de transe, nada de bom poderia vir dali, mas mesmo assim eu não falei uma palavra. Fui fazer o que me pedira.

Puta merda! Eu nunca demorei tanto tempo tomando banho como naquela noite de quarta. Enquanto a água caía sobre meus ombros eu repassava cada cena do nosso relacionamento, cada conversa, cada sorriso, cada abraço e as brigas que tivemos ao longo desses 8 anos. Eu entrei em um retrospecto mental dos últimos dias procurando o que eu havia feito de errado. Não havia nada, eu juro! Estava tudo certo. Eu estava pirando por nada. Não havia motivos. Eu gargalhei. Ri de mim mesma diante das paranoias que estava criando.

Saí do banheiro e ela estava me esperando na sala, me joguei em cima dela com o corpo ainda molhado. Eu conseguia fazer palhaçadas e provocações até quando o momento pedia seriedade. Vesti a toalha e me sentei na frente dela. Seus olhos estavam apagados e não havia qualquer expressão em seu rosto. Peguei um cigarro do maço que estava na mesa de centro e acendi, aquela situação estava me deixando apreensiva.

Untitled – #5

Eu cometi outro erro. Não sei qual é o seu número na minha lista, eu parei de contar quando percebi que não havia nenhum acerto para competir. Agora o peso disso está recaindo sobre os meus ombros e estou pagando o preço.

Esse sentimento que toma conta é tão ruim, me sinto sufocada e inútil. Estou a poucos passos de uma derrota por desistência e sinto que nada vai me fazer voltar, porque essa é a única coisa que não tem volta.

Acordar tem sido desesperador, encarar o mundo aqui fora só me machuca mais. Quando finalmente penso estar indo bem uma pedra surge no meu caminho e eu travo. Estou cansada dos tropeços. Eu não posso voltar para trás e não posso seguir em frente. Estou presa aqui, dentro do meu próprio ser e eu sinto muito em dizer que está tudo um caos. Na verdade, sempre esteve, mas eu havia aprendido a lidar com ele, mas agora está diferente e eu não sei o que fazer. Estou cansada demais para tentar entender e/ou consertar qualquer coisa.

Me deixe trancada em mim, nesse abismo sem fim. Me deixe dormir.

Nota V – 03/05 – Soulmate

De uma simples brincadeira nasceu um sentimento que tomou parte de mim, você chegou devagar e foi se aninhando em meu peito. Como poderia negar qualquer coisa para você se eu vi apenas o melhor em seus olhos? Como eu poderia negar qualquer coisa para o seu sorriso tão lindo e verdadeiro?

Você derrubou todas as minhas barreiras e quando dei por mim já não havia como fugir. Devo admitir que, agora, não quero mais fugir, apesar de todo o receio que sinto, afinal sabemos das probabilidades, cultivamos uma cumplicidade verdadeira. Não ouso dizer que é amor, seria precipitado e inconsequente da minha parte e, bem, isso assustaria você de certa forma, mas o sentimento é bom e me faz sorrir, causa o que chamam de borboletas no estômago. Cientificamente falando, o que acontece nesse momento pode ser definido como uma paixão, afinal esse é um sentimento que descontrola qualquer racionalidade, onde as emoções ficam explícitas.

Estar perto de você é suficiente para que tudo de ruim se dissipe, a energia que emana é suficiente para que eu me renove e veja que ainda existem coisas boas pelas quais seguir em frente. Conversar com você é garantia de sorrisos fáceis, é a alegria compartilhada de forma espontânea, é saber que a felicidade veio me visitar em sua companhia. E sobre o abraço? Meu corpo estremece só de lembrar a sensação maravilhosa que é me perder em meio aos seus braços. O encaixe de nossos corpos me encanta, mas eu sou tão suspeito para falar disso uma vez que ainda não encontrei nada que não me encantasse.

É engraçado estar apaixonado por uma amiga, mas, fui eu quem disse que seria seu amigo antes de qualquer coisa. Antes que me interprete mal, isso não é nem de longe ruim. Ter você como amiga é uma das melhores coisas que poderia receber, rimos das mesmas bobeiras, fazemos piadas de tiozão e trocamos afetos em meio a copos de cerveja e guimbas de cigarro. Dançamos descoordenados e morremos de rir da nossa falta de ritmo e isso, meu bem, me fez cair na sua graça.

Eu não me esquecerei de você, nem de todas as coisas que me fizeram apaixonar, pois eu só enxergo o melhor de você até quando me mostra o lado não tão melhor. Que nossos encontros permaneçam vivos, mesmo que futuramente apenas em nossas lembranças. Que você sempre leve o melhor de mim, pois é o que sempre levarei de você.

Que hoje você esteja com aquele seu sorriso lindo estampado no rosto, esteja verdadeiramente feliz, bem mais do que nos outros dias e sinta o calor do meu melhor abraço de urso.

“Se eu soubesse tinha feito antes.”

 

O último adeus

Foi estranho perceber como você saiu da minha lembrança, sem mais nem menos. Em um dia nublado, na quarta-feira de cinzas, eu acordei e você simplesmente não estava mais lá. Por muito tempo eu não olhei a sua foto em minha carteira, nem disquei seu número pensando que talvez eu poderia ligar, não escutei as músicas que você me apresentou, não tomei as cervejas e nem li aqueles livros que comprei por sua causa. Por algum tempo eu não acessei mais aquela sua rede social para tentar saber alguma notícia sua, nem tentei ler seus novos textos, publicados religiosamente todo sábado.

Naquela quarta-feira, meu peito amanheceu mais leve e o pensamento alçou voo em busca de novas aventuras. Nenhum dos dois lembrou de você. E, por mais incrível que isso possa parecer, estamos bem. Eu, meu pensamento e o meu coração. Não existe mais a saudade do que não pudemos viver, nem a sensação angustiante de que poderia ter sido diferente, nem aquela vontade quase incontrolável de que eu deveria te procurar e tentar melhorar as coisas. Não há mais nada. Nada de você aqui.

Depois de todo esse tempo, hoje nós lembramos, mas foi uma lembrança dessas que passam rapidamente e a certa distância, e antes que pudéssemos esquecer de novo, resolvi escrever um último adeus para que de vez você seja uma questão resolvida. Então, só nos resta dizer:

Hasta la vista, baby!

A calmaria da furia

Entrou no carro e bateu a porta com toda força que a embriaguez lhe permitia, eu não vi, mas escutei e a imagem se projetou. Ele já tinha feito isso antes enquanto eu esperava no banco de trás. Ele só queria sair dali, nada além disso, queria ficar em paz com seu inferno particular. Eu não podia deixar que saísse daquela forma, dez minutos antes estávamos virando shots de tequila na cozinha, um atrás do outro como se fosse a última vez que beberíamos. Eu corri logo atrás dele e o agarrei pelo braço, apenas olhei em seus olhos sem emitir qualquer palavra, nem de aprovação muito menos condenação. Eu vi a raiva consumir sua pele fazendo com que atingisse um tom avermelhado. Nos encaramos por alguns segundos apenas.

– Entra no carro e fica com a porra da boca fechada! – ele disse e eu apenas fiz o que pedira.

Ele arrancou antes mesmo que eu pudesse colocar o cinto. Eu já estivera ali antes, naquela mesma situação, eu sabia o que ele queria, sabia do que precisava, então só fiquei lá. Liguei o rádio e acendi um cigarro. Ele fez sinal mostrando que também queria alguns tragos, então fumamos. Eu observava as luzes do porto, ele cortava os carros na pista e nós escutávamos Suede no rádio.

Nós não tínhamos destino certo, ele precisava daquilo para organizar seus pensamentos e emoções, eu só estava lá pra ter certeza que tudo ficaria bem. Sempre ficava. Percorremos três cidades diferentes através da beira-mar. Paramos uma vez para abastecer e comprar mais cigarros e outra para comer um cachorro-quente. Mais três horas e o dia ia clarear. Ele estava melhorando. Seus olhos já estavam normais, sua pele retomara o tom natural e ele comentou algo comigo enquanto passávamos na frente de uma boate. Ele decidiu voltar, terminaríamos em casa. Seus pensamentos estavam se organizando e suas emoções estavam controladas.

*

Ao entrarmos ele me agarrou com força e beijou minha boca com urgência. As roupas foram deixando um rastro até o banheiro. Mais alguns instantes e encontraríamos a redenção.

Untitled – #4

Esse é um pedido desesperado de socorro.

Socorro!

A alma grita enquanto o sorriso segue estampado no rosto.

Estão sugando a minha energia vital!

Puxe-me para um longo abraço, permita que eu me perca em seus braços antes que eu me perca para sempre nesse abismo que está se criando dentro de mim.

Socorro!

É o meu corpo gritando para que a terra não o cubra agora.

Ainda é cedo!

Cedo demais para chegar ao fim.

Socorro!

Hoje ainda é terça.

Por favor, me ajude.

Eu imploro.

Socorro!

Loop

Desistir é realmente um ato de coragem, mas coragem não é uma das coisas que eu tenho agora. Vontade de desistir não me falta. Me falta CORAGEM. Olhar pro nada e imaginar como as coisas poderiam ser diferentes se eu tivesse um pouco de coragem para qualquer decisão que precisei tomar. Olhar para o passado é abrir uma ferida que nunca se cura, mas não doe quando eu não penso nela mas, é difícil assumir, tenho olhado bastante para o passado e sentindo a dor dessa ferida. Esse meu masoquismo vai acabar me matando qualquer hora.

Eu não quero pensar em um futuro que talvez não exista, mas estou vivendo um presente, ora bom, ora ruim. São poucas coisas que salvam o meu dia. Uma mensagem no celular, ouvir aquela voz e lembrar de alguns momentos são algumas dessas poucas coisas. Coisas pequenas que assumem uma importância salvadora. Ninguém percebe o sorriso de lado que consegue vencer a vontade imensa de deixar-me inundar com as lágrimas que enchem os olhos.

Enquanto eu escrevo meu pensamento voa longe, as palavras vão saindo devagar, no ritmo da música melancólica que toca no fone de ouvido, as batidas do meu coração não mantêm um ritmo, em alguns momentos parece que morri e em outros parece vão rasgar o peito. É engraçado imaginar quanto de sangue cairia na tela desse computador se meu coração saísse agora e como as pessoas que estão a minha volta ficariam horrorizadas.

Eu tenho um jeito quieto que é meu, um silêncio que não merece ser quebrado com a tentativa de um diálogo. A atenção dispersa me faz ir e vir no tempo e espaço, mas no fim eu sempre volto para o mesmo lugar. Há sempre um ponto de partida, por mais que isso se torne um loop.

 

Nota IV – 27/03

Eu não suporto a forma como me destabiliza. É revoltante me ver nessa situação. Eu tenho todas as minhas convicções, mas aí você sorri e eu desmonto. Você não tem pena de mim? Que tipo de monstro lindo você é? Ao mesmo tempo que quero te desprezar eu desejo mais ainda. Parece castigo, tortura, ou sei lá. Eu não me pertenço quando você se aproxima. Meu corpo estremece e o meu pensamento vai ao encontro dos seus lábios sobre os meus, em beijos molhados e intensos com ondas ao fundo e o vento que nos cobre. Isso é maldade pura e você sabe bem disso.

Untitled – #3

Então eu arrisquei mais uma vez
E bem, eu já sabia onde isso daria
Mas eu tô aqui, arriscando
Dando a cara a tapa
O coração esmurra o peito
Eu sei que vou me arrepender
De novo
E de novo
Isso é falta de amor próprio
Ou sou algum tipo de masoquista?
Envolver-me é sempre um jogo unilateral
Onde, no fim, eu começo tudo de novo
Com personagens diferentes
Vou tropeçando, aprendendo
A cada novo erro, um novo pedaço
Arrancado de mim
Eu sempre estive em pedaços mesmo
E quando tudo parecia ir bem
Bem, eu tô aqui de novo
Escrevendo palavras desconexas
Porque eu não sei o que acontece
Dentro da minha cabeça
Tudo é caos
E ultimamente eu tenho fumado mais
É uma tentativa de morte lenta?
Talvez seja, mas eu não assumo
Não quero que ninguém se preocupe
Mas as vezes, só as vezes, preciso
De atenção
Mas que se dane
Só se vive uma vez
E eu não tenho certeza
Mas talvez
Meu fio esteja…

Bem, acho melhor deixar pra lá.